segunda-feira

O MENDIGO E O MANEQUIM

Os dias passavam tão rápido quanto as motos envenenadas e seus pilotos etilizados tentando vencer o tempo. O mendigo olhava apaixonado o manequim. O jovem turco, toda a semana trocava a roupa do manequim o qual povoava os sonhos de amor do mendigo. Cada vez que escutava um tilintar de moeda na velha e rasgada caixa de sapatos o mendigo sorria e olhava para o manequim num sentimento de cumplicidade. As jovens meninas que passavam depois da aula viraram doutoras e os boyzinhos que davam as sobras dos baurus e das cachaças depois da baladas onde eram movidos a álcool, sexo e drogas eram respeitados homens de negócios... O tempo passou e passando o tempo o mundo transforma-se... Os edifícios engoliram a lojinha. Grandes magazine s, o turco já velho não tinha mais motivação e o manequim ficava meses com o mesmo modelo de roupa barata. O turco estava sentindo uma vontade serena de descansar. Depois de dormir na praça como fazia todas as noites desde que se suas lembranças estão presentes, caminhou para frente da vitrina onde estava sua cara-metade. A cortina estava baixada. A cortina nunca tinha estado abaixada, nem aos domingo. Passou um dia. Passou um ano. Destruíram a loja. Uma grande obra. O mendigo passou a morar na marquise em frente. Outros manequins não passavam de pessoas de plástico. Aquele manequim não. Com ela seus objetivos de vida foram realizados. Ela jamais tinha reclamado dele e de suas bebedeiras. Ela nunca tinha pedido para ele tomar um banho. Para ele ela o amava como ele era.O mendigo esqueceu e felicidade.Somente tristeza e dor. O mendigo amava e era amado. O que ele precisava mais?Todas as manhas, todas as tardes, todas as noites ele lembrava dela, olhar fixo ao horiz onte procurando sua amada. Sua bela e linda mulher. O radinho de pilha que ele não entendia nada, mas era companhia na solidão junto à garrafa de cachaça e ao pacote de fumo vagabundo. Ele lia o jornal todos os dias fazendo as noticias através das fotos.As caixinhas de sapato já eram trocadas com freqüência pois seu poder de amar até uma caixa de sapato foi se esquecido.A cachaça fazia lembrar do manequim. A sobriedade não deixava esquece-lo. Vielas e ruelas perdidas da cidade perambulando para lá e para cá e de cá para lá... Algumas pessoas vinham, as vezes, e davam um banho e cortavam a barba e o cabelo do mendigo...mas para que?Sua amada não podia vê-lo... mas ele saia cheiroso e podia se vislumbrar um rosto belo e maldito pela sua dor...No mundo do nada ele caminhava sobre as garrafas de refrigerante. O mendigo procurava e se sentia cansado... O tempo...E cadê o amor de sua vida. As caixas de papelão... Um dia, no fim dos seus dias ele avistou um c orpo de plástico...Saiu correndo, a cachaça na garrafa de plástico caiu no chão esparramando seu conteúdo como se o lixo o sugasse...O fumo do bolso furado se esparramou. Era o manequim... Um manequim...Um rosto vazio e sem esperança e sobre os restos dos VIPs e dos carentes ele viu a estrada para a vida...Tamanha felicidade para o mendigo que já estava na feliz idade...Chorou, Riu, Amou e foi amado. Um sono eterno de alguém que resolveu comemorar e tanta felicidade fez o mendigo nunca mais acordar. O sorriso tênue de alguém que estava feliz ficou em seus lábios. O manequim continua a brincar com a existência, rindo do tempo e esperando o inicio de uma nova era que começa a cada segundo de nossa vida, e em algum lugar, ele sabe que ambos se encontrarão para continuar uma estória de amor sem fim.