sexta-feira

A MEIA...


Era 1980. Eu estava na sacada de meu apartamento na periferia da velha Pelotas dos anos mágicos da liberdade. Lembro que eram onze horas da manha. O Seu Ivo na porta do seu bar, a transportadora que tinha embaixo de meu apartamento a todo o vapor. Fuscas, Variants e Chevettes e os velhos caminhões Mercedes 1113 para todos os lados. Odair José tocava no radio AM no espetacular 2 em 1 recem adquirido na “Mesbla”. Lembro de estar lagarteando no solzinho com uma felicidade adquirida graças aos comprimidos de Valium 10 do meu pai ,que eu comia mais do que balas Sete belo. Observava a tudo detalhadamente. O Marcelinho chegando do colégio. A Neila, a primeira mulher que gostou de mim passou me olhando e meu coração disparou. Eu era virgem e nunca tinha beijado uma boca. Os momentos passando até chegar a hora do almoço – Lembro que a moda da época era o bife de soja , a sensação do momento ,e todo mundo pegava gonorreia, chato e Crista de Galo (vide DSTs). Ao lado do bar do seu Ivo tinha uma obra: Uma casa que ficou incompleta, onde os adolescentes daquela rua do Bairro Fragata se reuniam para fumar unzinho, transar ou simplesmente conversar sobre a vida e o futuro. Passando alguns minutos observo o Werner entrar na OBRA: Pensei que ele ia fumar um baseadinho para abrir o apetite. O Werner deveria ter uns 14 ou 15 anos – era um pouco mais velho do que eu.O Cláudio com seu saquinho de bolas de gude na mão e foi directo para a OBRA como se tivesse marcado uma ponte secreta com o Werner. Pensei o que ele ia fazer junto com o Werner naquelas peças em ruínas...Jogar bola de gude não era possível, e a galera se juntava na frente da OBRA para jogar e não la dentro. O Werner era doidão e o Cláudio caretão e pateta. Ué! Fiquei encucado e comecei a cuidar. O Cláudio tinha 14 anos mas era evangélico, crente e abobado. Passou uns 15 minutos e vi uma das cenas mais tragicômicas e promiscuas que dois adolescentes poderiam protagonizar em publico. Os peões da transportadora, Seu Ivo, Bira Mijão, Dona Bebela , e mais algumas pessoas na rua: Escutamos os berros do Cláudio:

- MÃEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEE!!SOCORRO!!!!!!!!!!!

O Werner quer colocar uma coisa grande e dura na minha B*... - socorro mãe...chorando copiosamente...

... Era bola de gude para tudo que é lado.Pouco depois sai o Werner arrumando as calças de cabeça baixa e vai directo para a casa....

Um detalhe:

A casa do Werner era ao lado da Casa do Cláudio!!! Eu observo a D. Maria xingando o Velho Berny, pai do Werner...

O filho do eletricista traçando o filho do pastor por bolinhas de gude...

Aquela dezena de moradores tinha presenciado um fato surreal:

Dois adolescentes fazendo uma famosa “meia”.

Hoje Werner é um empresário da área de informática e o Cláudio vendedor de uma papelaria e obreiro de sua igreja. Ainda hoje ,ao nós vermos, sinto que eles ao me olharem, tem certo constrangimento, pois até hoje, 30 anos passados, eu lembro-os do passado pecaminoso dos dois, e me divirto para cassete com isso.


publicado originalmente e exclusivamente para o:

www.minhacomediadiaria.blogspot.com