segunda-feira

REALIDADE TEMPORAL

REALIDADE TEMPORAL

Alguém esta mexendo novamente no tempo. Eu podia sentir nas entranhas aquela angustia, parecia síndrome do pânico. Irrealidade. Psiquiatras e doentes mentais vão entender o que estou tentando explicar. Baixei a cabeça e tomei um pouco de ar na esperança que o mal estar passasse, mas a situação piorou mais ainda. Eu estava apavorado. Desta vez a situação era muito grave. Alguém andava mexendo com uma coisa seria. Não era ninguém olhando os jornais do dia seguinte para ganhar na megasena. Era uma coisa mais grave. Bem mais grave :

-Alguém queria mudar a historia.

E eu não podia permitir uma coisa dessas. Essa manipulação poderia indeferir no meu próprio passado. Mudar minha vida. Eu poderia deixar de existir. Eu tinha que cumprir o meu dever e manter minha vida. Eu não tinha nenhuma opção. Não que alguém fosse saber. Devem pensar que morri. Faz tantos anos que ninguém entra em contato comigo. Ninguém, desde que fiquei encalhado neste século. Devem ter me dado por perdido. A cápsula e meus companheiros se perderam no fluxo temporal. Mas a missão não tinha fracassado, pois eu não tava morto e tinha um trabalho a fazer. Sobreviver. Com ou sem a ajuda do quartel-general, com ou sem meus parceiros eu tinha um mundo a salvar, uma realidade a preservar. Uma missão a cumprir. Lembrei de meus comandantes. Sabia qual era o meu dever. Sei qual é o meu dever. O passado não admite manipulação.

Eles podiam mandar mais alguém. Talvez não possam. Talvez não existam mais. Quem sabe não tinham percebido a tempo. A técnica das viagens espaço-temorais-espírituais permite que estejamos em qualquer lugar do tempo. Isso não é o suficiente quando tem que se vigiar todo o tempo o tempo todo. Desde o alvorecer dos tempos até o presente. (não esse presente, mas o real) para vigiá-lo por inteiro seriam necessários milhares de pessoas para cada segundo em cada lugar do planeta. Isso era impossível. Somente os mais capazes eram mandados. Gente como nós, gente em que se pode confiar de verdade. Existiam poucos como eu.

Endireitei o corpo. Olhei pelo espelho atrás do bar e soube o que tinha que fazer. Tinha que parar com aquela manipulação. Exatamente como interrompera nas ultimas três...quatro vezes.

Talvez eles mandassem mais alguém. E se não mandassem.

Eu mesmo tinha que encontrar o manipulador e neutralizá-lo. Se ele não estivesse no meu espaço temporal eu teria que mexer no tempo. Teria que mudar o passado dele sem mexer no meu.

Isso é difícil, mas pode ser feito.

Deslizei do banco, fiquei em pé e engoli num único gole a vodka. Paguei algum valor na moeda da época. Encolhi os ombros, ajeitei o casaco e sai para o frescor de uma noite de verão. Insetos cantavam em algum lugar. Insetos estranhos extintos muitos anos antes que eu nascesse. Os postes de luz abriam clareiras nas calçadas escuras da noite. Virei devagar o pescoço sentindo o fluxo temporal, a forma corrente do tempo em minha realidade. O centro da cidade era firme e enraizado no passado e no presente e seguro no futuro. Voltando em direção oposta senti um nó nas entranhas. Atravessei a rua vazia e entrei num carro. Guiei pelas avenidas ignorando as vias expressas. Minha recepção piora nas vias expressas. Ficam longe do fluxo vital da cidade onde existe a rede espiritual. Segui para a zona norte e depois para o leste. Estava com náuseas, vomitava ao volante. Uma dor medonha na barriga. Parei o carro junto ao meio-fio. No meio do vomito comecei a me concentrar e forçar a percepção beta a estabilizar-se. Alguns minutos se passaram e voltei a mim. Olho para o porta-luvas. Nada de luvas. O nome do compartimento era um anacronismo mesmo neste espaço temporal. Minha pistola estava ali. Não minha pistola de serviço. Era avançada demais para este tempo. Eu havia comprado uma arma aqui nesta era. Tirei do porta-luvas e botei na cintura. O peso e o metal duro da arma junto ao corpo pareceu me dar segurança. Eu possuía uma faca. Eu estava lidando com o ser humano na sua primitividade. O inicio do século XXI, com suas guerras religiosas fanáticas, as crises econômicas não faziam o mundo seguro, nem mesmo numa grande cidade da América do sul. A lamina da minha faca tinha quinze centímetros. Eu a afiara. Armado fui em frente. Duas quadras adiante tive que sair da avenida principal. Existiam ruas pacificas e arborizadas. Parei o carro. Desci com a faca numa mão e a pistola na outra. Uma das casas estava iluminada. As outras estavam escuras. Examinei e vi que tudo estava ali. O foco de perturbação do fluxo da historia. Talvez fosse um ancestral do manipulador. Eu já tinha visto isso antes. Atravessei o jardim e toquei a campnhia. A luz da entrada foi acesa. Lancei-me contra ela. A porta abriu e vi um homem de uns quarenta anos segurando o pulso na altura da empunhadura da porta. Talvez eu tivesse usado de mais violência que o necessário. Entretanto eu não podia correr riscos. Apontei a pistola para o rosto do homem e fitei seus olhos por alguns segundos. Apertei o gatilho. A arma produziu um estrondo que parecia o fim do mundo. O homem caiu e a parede branca a alguns metros ficou suja que sangue e carne. Uma mulher gritou dentro da casa. Apontei a arma para ela. Indeciso. A dor continuava. Vinha da mulher. Puxei novamente o gatilho. A mulher caiu com a blusa toda manchada de sangue. A dor começou a desaparecer. O tempo era real novamente.lamentei ter atirado nele ,mas não tinha opção. Qualquer demora poderia ser fatal. A vida de uma pessoa é preciosa mas não tão preciosa como a própria historia.

Senti uma pontada no estomago. Talvez fosse um efeito retardado. Eu tinha que ter certeza. Ajoelhei-me e comecei a trabalhar rapidamente com a faca. Quando terminei não podia haver duvida que os dois estavam mortos e jamais teriam filhos. Acabei o trabalho e fui embora tranqüilamente. A policia era muito trapalhona nesta era. Eu sabia que aquilo seria noticiado nos jornais como obra de um lunático. Um ladrão desequilibrado mental que entrara em pânico antes de poder levar algo. Eu salvara novamente a historia.

Às vezes tenho pesadelos sobre o que faço. Às vezes sonho que matei a pessoa errada. Que eu mesmo me encalhei aqui. Se a não ouve falhas e eu mudei o meu passado e quero viver nesta era?

Tenho estes pesadelos.

Os piores de todos, porem, são aqueles que sonho que nunca mudei o passado, que nunca vivi em qualquer outra época. Cresci aqui sozinho, uma infância infeliz, uma adolescência desgraçada e uma triste vida de adulto. Às vezes tenho certeza que nunca viajei no tempo e que matei aquelas pessoas por nada. Esses são os piores de todos. Agradeço a Deus por não ser verdade.

7 comentários:

  1. cara, cara, cara... simplesmente intrigante!!! o texto é muito foda! um cenário chuvoso, tenebrante na madrugada sombria me veio à mente... luzes amarelas de postes envelhecidos, grilos da cidade! é bom ler quando a mente vai longe, belissimos texto!

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  2. IRMÂO, tu já deve ter tudo mas eu daria de novo os selos. PRESENTINHO!

    Opa!

    Ganhei uma CHUVA DE SELOS da Luka FREE, putz, to feliz pacas e ela me mandou encaminhar pros blogs dos meus amigos, que amo mesmo, e você está nessa lista!

    Passa lá e pega! É um montão de selos, um montão de beijos, abraços com a seguinte frase:

    "SEGUE EM FRENTE! TE ADMIRO PRA CACETE! ESTAMOS JUNTOS NESSA!"

    Xandy Britto

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  3. André,

    Um conto de ler, reler e contar.
    Parabéns! Gostei muito.

    Abraços
    Luísa

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  4. Muito bom, amore. Gostei mito bjs

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  5. Você é genial. Simplesmente genial!

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  6. Você é genial! Simplesmente genial!

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