sábado

MINHA VIDA NA FAVELA.


Lembro de ver o Madrid sair para “trabalhar” todas as manhas. Ele morava num velho casebre. Tinha mais de 60 anos quais destes ficou uns 30 na cadeia. Dezenas de filhos em vários lugares, mas ele tinha orgulho de um que tinha 45 anos e era médico. Madrid gostava de ter sido esquecido pelo seu passado. Lembro de encontrar ele todo arrumadinho com sua velha bolsa. Madrid era um disque-disque (Uma espécie de ladrão que furta em supermercados – O chamado crime de descuido) e de segunda a sábado pela manha ia para os estabelecimentos comerciais fazer pequenos furtos para viver.Fez isso a vida toda. Conheci Madrid logo que voltei a morar em Pelotas e o pessoal da favela em que ele morava me acolheu muito bem, tanto que eu saia de minha casa a sete horas da manha e voltava à noite de tão bem tratado eu era pelos marginalizados moradores que vivem ainda hoje muito abaixo da linha da miséria. Falávamos a mesma língua – Eles eram excluídos sociais e eu um excluído "mental"(na sociedade moderna de hoje é proibido pensar!). A única coisa que fazia a pequena favela sobreviver era o trafico:Cocaína e maconha. Praticamente todos eram catadores de lixo e ex-presidiarios. Ali eu me sentia em casa...sentia-me útil pois tirava duvidas e ajudava todo mundo – O Madrid foi um dos amigos que conquistei na favela – Um homem de mais de 60 anos que usava cocaína/bebia muita cachaça diariamente e fumava crack com os adolescentes – Quando ia fazer um ganho nos minimercados Madrid vinha com os bolsos cheios de chocolates para as crianças da favela...Conheci o ser humano na sua essência e com certeza todos os papos que tive nesta e noutras favelas foram bem mais produtivos que os que tive nos corredores das universidades (na maioria dos casos, um bando de antas que queriam concluir seu curso e encher o cú de grana e o ser humano que se foda!!!) – Naquela favela, mesmo com todas as aberrações e disparates, eu vi a vida, e vi a paz, eu vi o companheirismo,a lealdade, amizade... – Coisas que jamais conheci numa sociedade que sempre me marginalizou por eu questioná-la e exigir ética e vergonha na cara dela. Um dia a policia fez uma limpa na favela e levaram presos seus lideres por trafico e eu fui embora. Faz pouco tempo que Madrid morreu – Uma morte digna para ele : Pediu um martelo de canha às 8 horas da manha para entrar no pique e ir fazer seus furtos. Simplesmente se apagou na mesa do bar. Dormiu e nunca mais acordou. Devo muito do que aprendi a um ladrão e o mais estranho que fracassei nos negócios por não gostar de mentir e não saber roubar dentro da lei (e muito menos fora!!). Hoje não vou mais na favela que já não é mais uma favela, e sim uma vilinha. O trafico continua mas as antigas drogas como cocaína e maconha foram substituídas pelo crack/merla e por consumidores de 14 ou 15 anos...os velhos traficantes foram substituídos por bandidos mirins armados e prontos para matar pois" nao da nada" e todo o bem e “pureza” viraram mal...mas a velha favela ainda me traz boas recordações e me fez ter certeza que somos todos “iguais” e absolutamente nada muda isso, muito menos dinheiro.

5 comentários:

  1. Belo artigo André. Com ricos detalhes. Sem dúvida a vida de pessoas nas favelas desse país é dura e muitas vezes é não vista com bons olhos pela "sociedade". Infelizmente as drogas e o vício são outros que somam para destruir as vidas dessas pessoas, mas em favelas tem muita gente boa mesmo. Abraços.

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  2. Olá, André!

    Excelente postagem que mostra muito claramente que a simplicidade das pessoas pobres vale muito mais do que a arrogância, o preconceito e egoísmo que são próprios das pessoas ditas cultas e ricas. Eu também convivi e tive amizadades com pessoas muito pobres que sempre me acolheram em suas casas e me tratavam muito bem, coisa que não acontece com pessoas que se dizem com riqueza e com formação intelectual avançada.

    Parabéns pelo belo texto.

    Abraços

    Francisco Castro

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  3. Ótimo texto, André! Nas favelas encontramos pessoas de bom caráter e bandidos também. Da mesma forma que nos bairros ricos. Parabéns!

    Abraços

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  4. Tal como por eles somos marginalizados, os marginalizamos e nem percebos que muitas vezes também somos bandidos e vilões do macrocosmos que é a nossa sociedade em geral. Se cada um se envolvesse de alguma maneira com o bem estar do próximo, certamente viveriamos num mundo, quem sabe, um pouquinho melhor.

    Belo texto,
    parabéns!
    Abraços!

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  5. Fala André, como admiro muito seu blog, passei por aqui e resolvi ser seu seguidor ó Mestre! rsrsrs Abraços!

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